O Centro do Universo
Be yourself is all that you can doArquivo de janeiro 10, 2012
Augusta, Angélica e Consolação
Uma coisa boa que Recife fez comigo foi me apresentar o samba. Isso nunca fez parte da minha formação musical. Minha herança foi de Raul Seixas e nordestinidades por parte de pai (de Luiz Gonzaga a Zé Ramalho, de Geraldo Azevedo a Alceu Valença); músicas de rádio por parte de mãe (e empregadas que eventualmente passavam lá por casa); e outros rocks e o então emergente forró estilizado por parte de tia (irmã do meu pai, alguns anos mais velha que eu, e hoje acho que um pouco bipolar, afinal quem coloca Guns e Legião de um lado do k7 e Limão com mel e Babysom do outro lado da fita?). Ao longo do tempo, fui ouvindo mais e mais rock, de todas as épocas, todas as variantes, e aqui e acolá uma música mais popular ou tradicional, mas nunca fui chegado ao samba. Talvez a única memória sobre isso era um grupo de velhos senhores que se reuniam algumas esquinas depois da minha casa pra tocar choro e o que hoje eu entendo como “samba de paulista”. Enfim, outro dia eu tento dizer o que eu entendo por samba de paulista. Basta saber que eu ia comprar cerveja pro velho, e ficava uns bons momentos observando.
Voltando ao assunto, foi o Recife que deu a dica. Primeiro, foram os bons professores. A turma da “Lapada na Rachada”, a galera da faculdade com quem eu tomava algumas quando não estava no movimento estudantil, manjava tudo de samba. Guga e Pedrinho já tinham isso no sangue. Rominho conseguia acordes possíveis só pra quem tem polidactilia. Plínio, Marília e Giza também já traziam isso desde sei lá quando. Talvez eu fosse o único que não me derretia por Chico Buarque, ou que não achava “Vou festejar” uma grande canção. Se meu cumpadre Henrique, outro dos professores, ler isso, ele me mata…
Depois foram os shows. As experiências únicas das apresentações de Tom Zé, uma superespecial na Rua da Moeda. A bela surpresa com Riachão num Recbeat da vida. Dançar com o Monobloco num nascer de quarta de cinzas no Marco Zero. Chegou ao ponto de ir numa apresentação de Zeca Pagodinho em abertura de carnaval…
E de repente, eu estava aí, baixando discos de samba. A discografia de Chico. Estudando o samba. Todos os olhos. Os Afro-sambas. Os primeiros de Jorge Ben. Os álbuns do Mundo Livre. Não é exatamente o que se pode chamar de samba de raiz, mas eu tenho meus momentos. De vez em quando rola um Ataulfo Alves, um Noriel Vilela ou um Ed Lincoln pra não fazer vergonha. E também me permite conhecer um Rômulo Fróes e um Lucas Santanna.
Por isso, em dias como hoje, em que eu acordo com vontade de samba, e passo o dia com Tom Zé, Chico e esses outros malandros, esse geralmente é um dia bom. Não sei o que é, mas quando eu acordo assim, eu acho a cidade uma beleza.